Home Justiça ″Meio literário é fechado e um pouco corrupto″

″Meio literário é fechado e um pouco corrupto″

by noticiapt


É uma das pouquíssimas revelações da literatura portuguesa dos últimos anos e regressou agora aos romances com “Quando servi Gil Vicente”. O JN ouviu João Reis a propósito da escassa proliferação de novos autores. As suas respostas merecem leitura atenta.


A não atribuição da edição deste ano do Prémio Leya e o aumento da idade de participação no Prémio Saramago para os 40 anos vieram chamar a atenção para um fenómeno de contornos sombrios: há cada vez menos jovens talentos na literatura portuguesa.

Para compreender melhor o panorama, escutámos João Reis, um dos raros autores surgidos esta década. Da falta de arrojo das editoras às limitações dos leitores, o autor de “A devastação do silêncio” é frontal na hora de enumerar as principais causas deste estranho eclipse literário.

Há cada vez menos jovens autores a aparecer no meio literário. A ficção literária interessa cada vez menos aos jovens autores portugueses?

Creio que há vários motivos para o aparecimento de cada vez menos ficcionistas: alguns nacionais, outros mundiais. O principal problema é aquilo a que se designa «o mercado». Por um lado, a globalização anulou, em grande parte, as diversas culturas nacionais, impondo a cultura anglo-saxónica um pouco por todo o mundo. Ora, em Portugal valoriza-se mais o que vem de fora, sobretudo do mundo anglófono, do que o que é produzido a nível nacional (e noutros países). Embora a abertura a outras literaturas seja, em si, benéfica, por oposição à relutância que, por exemplo, os leitores dos referidos países anglófonos têm em ler literatura traduzida, a verdade é que isto leva a que se aposte pouco na projeção ou promoção, por mínima que seja, do autor nacional, e em especial do autor jovem. É mais fácil vender um autor que já tem currículo no estrangeiro do que promover um jovem autor nacional. Como os leitores tendem a comprar ou ler apenas autores que já conheçam ou estejam referenciados, é natural que um autor jovem tenha dificuldade em vingar, a menos que seja auxiliado pela referida promoção. Ou seja, ainda que apareçam jovens autores, é-lhes difícil chegar ao público. Por outro lado, para escrever e arriscar mostrar o que se escreve é necessário ter uma grande paixão pela escrita e pela leitura, o que acontece cada vez menos.

Os jovens tendem, portanto, a enveredar por outros meios de expressão mais recompensadores, pois infelizmente poucos são os casos em que há essa paixão pura pela arte. Poderá ser uma visão mais cínica do problema, mas há que atentar ao fator económico e mercantilista da escrita. Por fim, há também que ter em conta que vivemos num país altamente centralizado, algo por de mais notório na área da cultura, o que também dificulta a vida ao jovem escritor. Além disso, é uma área onde não existe, muitas vezes, qualquer noção de meritocracia, sendo um meio fechado e um pouco corrupto, o que, aliado a uma tendência mundial para uma má receção da ficção, leva a que os jovens autores se retraiam ou tão-só não surjam publicados.

A queda de leitores da ficção, de todas as idades, é global. Que novos desafios é que isso traz aos ficcionistas?

Creio que este problema está a alterar a ficção, sobretudo a literária. Se repararmos, é cada vez mais notória a incapacidade, por parte dos leitores, de entender o conceito de ficção ou efabulação em literatura, sendo-lhes necessário fazer uma colagem ao real – daí a moda da autoficção (a ficção não foi sempre, em parte, autoficção?). Grande parte dos leitores e a maioria dos jovens, inclusive universitários, não entende ironia ou sarcasmo, o que desde logo limita a criação literária e a reduz ao seu sentido denotativo. Isto é preocupante e, associado à exaltação do homem e da mulher positivos, ao elogio do mundo do sucesso – quando a literatura de qualidade continua, no fundo, a ser a literatura do falhado e do marginal – não se antevê um caminho fácil a quem pretende escrever literatura, uma ocupação já de si em risco pela concorrência de outros meios de entretenimento (embora a literatura não seja exatamente um meio de entreter seja quem for, é com estes meios que tem de lidar). Tendo em conta que a capacidade de concentração de população em geral tem diminuído drasticamente, não há muito que um ficcionista possa fazer para combater vídeos publicados no Youtube ou publicações nas redes sociais. Isto a menos que se queira desvirtuar por completo a ficção escrita, é claro.

Até que ponto o “eclipse” de novos autores tem que ver com o quase desaparecimento de prémios na área da revelação e com o facto de as editoras estarem a apostar menos na ficção, por vender menos?

Obviamente que o desaparecimento de prémios não ajuda, sobretudo porque são um meio de chamar a atenção para autores num país onde se lê pouca literatura e onde o leitor médio não compra autores que desconheça ou não tenham sido consagrados pela crítica. Sejamos sinceros: poucos avaliam por si mesmos o valor de determinado autor, e muitos nem sequer o poderão fazer. As editoras procuram editar autores já consagrados ou em parte consagrados, autores que possam promover por serem conhecidos de algum outro meio (não têm necessariamente de ser apresentadores de TV), ou mesmo autores que não vendam muito, mas pertençam a algum dos ‘lobbies’ literários. Obviamente que os prémios ajudariam os jovens autores, mas, para ser franco, não fazem falta se são usados apenas para promover autores que já pertencem ao ditos ‘lobbies’. Não se trata de haver falta de qualidade em autores com menos de 35 anos, ou de estes não terem maturidade suficiente para escrever bons livros: trata-se, afinal, de servir determinados interesse económicos e círculos de amizade, o que vai por si só excluir qualquer autor sério que não pertença ao tal clube restrito. O desaparecimento destes prémios é só mais um sinal do quão desinteressadas estão as editoras e os restantes agentes culturais em promover, de facto, a literatura e o seu rejuvenescimento.





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